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Arte em Trânsito
Por WALDO BRAVO - 2006
O sistema da arte vive um delicado momento, a crise da
legitimação das grandes narrativas hegemônicas. Simpósios,
seminários,
palestras e encontros de todo tipo, buscam rever os padrões,
as estruturas e as relações com a arte contemporânea.
Essa atual condição sistêmica não consegue refletir com
clareza e convicção o tempo que vivemos, os padrões vigentes
são de outros
tempos. A crise geral dos espaços expositivos e museológicos
está instaurada.
Observando o contexto atual da arte, onde temos obras de
caráter híbrido, transculturais, multifacéticas, polimórficas,
interdisciplinares,
multidisciplinares, multimídicas, relacionais, canibais,
antropofágicas, contaminadas, multiterritoriais, etc. etc.
- Ou seja, o mix-tudo
ou mix-total.
A noção de fronteira entre as diferentes formas culturais
desapareceu ou diluiu-se a tal ponto que é impossível compreender
o estágio
atual da arte sem essa consciência, a qual torna obrigatória
uma visão contemporânea múltipla, aliada a um pensamento
contemporâneo múltiplo.
Nós, os artistas visuais, estamos no centro dessa questão
e cabe-nos tomarmos algumas iniciativas, procurando alternativas
frente
a esse esgotado sistema da arte vigente.
Nesse contexto, você está recebendo o primeiro exemplar de
ARTE EM TRÂNSITO - Espaço Expositivo Impresso.
Partindo do principio de que as idéias antecedem as obras,
decidi adotar de maneira experimental este canal de comunicação,
usando-o
como suporte de exposição, de divulgação e de distribuição
das minhas idéias, reflexões, projetos e obras.
Procuro, com esta iniciativa, fazer circular idéias no circuíto
da arte, algumas delas - embora embrionárias - podendo ser
adensadas ao longo desse processo expositivo em trânsito.
Consciente de que, numa exposição convencional, apenas uma
minoria dos convidados comparece ao local da exposição (aproximadamente
4%), deixando conseqüentemente, 96% deles sem contato com
as
obras expostas, busco com esta iniciativa contornar essa
dura realidade. Em vêz de esperar o público ir até a exposição,
levarei
as minhas idéias e obras até o público, através deste Espaço
Expositivo Impresso.
Na minha obra, em particular, procuro alcançar a utopia da
liberdade, um ponto ideal de absoluta expressão, livre de
manipulações de
mercado, de tendências e da dependência dos espaços museológicos.
Por isso adotei uma postura de não-linearidade, de ruptura
com tudo aquilo que aprisiona, prende ou sistematiza meu
processo
criativo.
Ao mesmo tempo, a minha obra traz consigo a renúncia ao lugar
geográfico, regional e local, porque este referencial é limitador,
somente sendo de “lugar nenhum” é possível alcançar um território
livre, um lugar de pensamento livre, de mente livre.
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LINGUAGEM e ARTE
Por ANTONIO CARLOS FORTIS*
- 2006
A mais antiga de todas as mídias de massa
é, ainda hoje, depois da revolução informacional, tão eficaz,
presente e atuante quanto foi desde o seu advento com a invenção
da tipografia.
A antiguidade da comunicação escrita e a concorrência das novas
mídias, desde o telégrafo, passando pelo rádio, pela televisão
e finalmente pela internet, não colocaram em risco a sua existência
na pos-modernidade. Ao contrario, atualizaram-na.
De fato, publicações de todos os tipos, diários, semanários,
anuários, magazines, revistas especializadas, específicas de
grupos etários ou étnicos, periódicos científicos e religiosos,
revistas acompanhadas de outras mídias como CD´s, DVD`s e mesmo
de objetos volumosos, tem estado disponíveis em todas as esquinas
e recebido divulgação na mídia televisiva.
No campo das artes visuais, a mídia escrita ganhou relevo com
a arte conceitual que teve início nos anos 60. Numerosos periódicos
editados por grupos de artistas plásticos, na Inglaterra e
nos Estados Unidos, discutiram questões centrais da produção,
da circulação e do consumo das artes.
No entanto, o ponto de inflexão no uso da mídia escrita pelo
mundo da arte, ocorreu quando o curador inglês Seth Siegelaub
organizou exposições na forma de catálogos, fazendo destes
os verdadeiros espaços das exposições.
Ao servir-se dos periódicos e dos catálogos como espaços expositivos,
buscando alternativas para o controle dos espaços museológicos
sobre a produção e o consumo das suas obras, os artistas descobriram
que ao invés de o observador vir até a obra (no seu templo,
o museu), a obra podia ir até ele, tornando assim o museu supérfluo
(WOOD, 2002:35).
No entanto, a descoberta do encarte como espaço expositivo
móvel, dinâmico, ocultava uma outra descoberta, ainda mais
importante no universo simbólico das artes: o uso da mídia
impressa como suporte.
Quando a obra encontra-se impressa na forma de reprodução,
ela converte o papel (ou outro material) em espaço expositivo.
Quando, porém, ela figura ali, depositada sobre a matéria mesma
sobre a qual se adere, ela o converte em suporte (bidimensional
e até mesmo tridimensional no caso de objetos).
No campo das artes gráficas, tais procedimentos funcionam com
regras e técnicas próprias. No caso das artes visuais, não
parece haver muitos desenvolvimentos específicos. Exposições
enviadas pelo correio, livros-obra, diários de artistas, de
modo algum esgotam as possibilidades oferecidas por esse espaço
tão antigo e por esse suporte tão pós-moderno.
Não obstante, a arte como fenômeno ao mesmo tempo de comunicação
e de significação (CALABREZE, 1987:17), não podia prescindir
por muito tempo desse espaço cuja natureza lhe é tão homóloga.
Ademais porque, o conteúdo último de toda obra de arte é teórico
(CALABREZE, 1993:38), portanto lingüístico.
O mundo produzido pelo jogo da arte é linguagem, e é ela, e
não outra coisa, o que o faz emergir. É assim que a arte desvela
a derradeira verdade do mundo: a linguagem (CAUQUELIN, 2005:101).
Com razão, Teixeira Coelho, escreve que a verdade da arte reside
na sua linguagem, que é o seu próprio código de representação
e que, por isso, a questão nuclear da modernidade e a da linguagem
(SD:44). Nesse sentido pode-se entender a afirmação lacunar
de Kátia Canton (2001:37) de que “Arte é texto”.
Ora, para o artista visual que reflete sobre o seu fazer, especialmente
para alguém como Waldo Bravo cuja obra visível brota antes
de fontes invisíveis (das questões contemporâneas) para as
quais ela constitui uma resposta, a arte é realmente texto.
E texto também na medida em que sua obra é profundamente teórica,
em razão da construção conceitual dos enunciados do seu discurso
poético.
O que se vê do que Waldo faz são argumentos, noções, conceitos
e categorias. O que se lê do que ele escreve, convém ler com
imagens e representações mentais, já que são propostas para
se materializarem na mente do destinatário.
Que outro veículo, pergunto, que melhor suporte para uma obra
de tal natureza, que o velho e imortal suporte de texto?
*Antonio Carlos Fortis é Antropólogo e Critico de Arte
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