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Una
Lectura de Recortes Urbanos del Artista Chileno Waldo
Bravo
.....Vivimos
en un mundo ficcional, creado por discursos que han
sido seleccionados entre muchos otros y sólo representan
un fragmento de la realidad. Discursos que se imponen
desde los medios de comunicación masiva y se instalan
por sobre la realidad experiencial. En muchos casos,
el modo más común de estar en contacto con los hechos
es a través de estos discursos, pero ¿qué tan bien
representan estos discursos la realidad? ¿Cuál es
el límite entre la realidad y la ficción? En el desempeño
de lo cotidiano ¿existe este límite?.....Las preguntas
anteriores han sido abordadas desde los distintos
ámbitos de la creación artística. J. L. Borges en
su cuento Tema del traidor y del héroe (Ficciones, 1944) presenta una historia imaginada
en la que la realidad copia a la ficción. Françoise
Ozon en su última película, La piscina, trabaja en
torno al poder creador de los relatos. Desde otro
lenguaje, el artista chileno radicado en Brasil,
Waldo Bravo cuestiona la relación realidad/representación
con su intervención Recortes urbanos, la que consiste
en la sustitución de paisajes reales por la imagen
de estos. Pero no es una imagen espontánea, ‘natural’,
la que sustituye el paisaje. Las imágenes a las que
asistieron los transeúntes de Sao Paulo, desde el
22 de Mayo al 4 de Junio de 2004, han sido trabajadas,
modificadas digitalmente para poder reemplazar el paisaje......En total fueron 10 las intervenciones simultáneas
de 3 metros de alto por 9 de largo. Esto daba un
total de 270 m² de instalación, en las que utilizando
el espacio de los afiches publicitarios, el autor
cuestionaba y advertía a los transeúntes. Debido
a las características de la obra, existía sólo un
punto en el cual la imagen se acoplaba y confundía
perfectamente con el fondo, en el resto de las ubicaciones
surgían imperfecciones, descalces entre lo representado
y su contexto. Desde estas imperfecciones surge el
cuestionamiento con respecto al soporte, al límite
de la obra y a su relación con el contexto. La obra
de Waldo Bravo no se entiende, no es capaz de dialogar con la cultura, si no se encuentra inserta en un determinado
lugar en un cierto intervalo de tiempo. Tampoco lo
puede hacer si pasa desapercibida, por lo que requiere
de la lectura y la atención de los transeúntes. Con
respecto a interacción de la obra con su contexto,
el autor señala: “La imagen, al confundirse con el
paisaje, provoca su auto-apagamiento, la negación
de la imagen autónoma. En ese momento, la presencia
y la ausencia de esa imagen se confunden”. En el
punto de mayor perfección de la relación obra/entorno,
ésta se niega a sí misma, oculta sus mecanismos,
su materialidad la hace transparente.
.....La
propuesta de Recortes Urbanos se alimenta de la obra
La condición humana II (1935) de René Magritte (1895-1967),
pero va un paso más allá; Bravo vuelca la preocupación
pictórica de Magritte al mundo real. Apropiándose de
los lugares públicos, de las esquinas de importantes
calles y avenidas de Sao Paulo, esta sustitución de
la realidad por su imagen interpela a los transeúntes
en busca de un interlocutor. El artista señala que
cada una de sus intervenciones “solamente es percibida
por miradas más atentas y conscientes, provocando nuevas
lecturas de los espacios ocupados por la mirada”. No
cualquiera puede leer la obra de Waldo Bravo, así como
no cualquiera es capaz de desentrañar los mecanismos que se ocultan detrás de los discursos que construyen
la realidad. Se requiere de un lector atento, de un
transeúnte atento que sea capaz de determinar cuales
son los límites de la realidad y su relación con la
representación para así efectuar el descubrimiento
y la interpretación de los Recortes Urbanos.
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RECORTES
URBANOS
Por
WALDO BRAVO - 2004
Em 1935, René Magritte, na sua obra “A condição humana II”, questionou
a ambigüidade entre a paisagem real e a paisagem representada.
Esse conceito, embora muito bem representado nesse quadro, não
é a realização dele, e sim, apenas a tradução figurativa desse
pensamento, o qual permaneceu no plano das idéias.
O sincronismo visual entre paisagem real e paisagem representada
só existe em obras sem autonomia, ou seja, em obras dependentes
da relação posicional do observador. A execução desse conceito
somente é possível mediante uma expansão territorial, inserido-o
no convívio do nosso mundo. Para isso, é necessário abrir mão
da autonomia da arte. Naquele momento de Magritte, obras dependentes
e relacionáveis não existiam - isso era impensável. A autonomia
da arte era sagrada e não se falava na perda dessa autonomia.
O atual projeto “recortes urbanos”, que também poderia chamar-se
“A condição humana III”, em função do diálogo com Magritte, apresenta
aportes a esse conceito.
Este projeto de intervenção urbana questiona as relações e interferências
da imagem na paisagem, e da paisagem na imagem.
A idéia é criar uma interferência na paisagem urbana com uma
imagem da mesma paisagem, fundida e sincronizada, inserindo uma
perturbação na superfície do campo visual dessa mesma paisagem
urbana, que somente é percebida por olhares mais atentos e conscientes,
provocando novas leituras dos espaços ocupados pelo olhar.
Ao locomover-se diante dessas intervenções, observando-as, o
espectador perceberá que, num determinado ponto de vista, é possível
unificar e integrar, no campo visual, a imagem digital e a paisagem
real, criando-se alterações nos planos e na profundidade visual.
O diálogo entre a paisagem real e a paisagem representada resulta
em indagações visuais entre a perspectiva real e a perspectiva
representada na superfície da imagem. Ou seja, entre a profundidade
real e o achatamento desses planos e profundidade na superfície
dessa imagem. Criam-se dessa forma, significativas alterações
entre a superfície e a profundidade dessa paisagem urbana, entre
aquilo que é figura e aquilo que é fundo.
É perturbadora a sensação, ao olharmos em profundidade sabendo
que parte dessa profundidade é superfície. Trata-se de um recorte
visual na superfície da paisagem real.
Não procuro conteúdos específicos nas imagens, o meu interesse
é pela relação das imagens confundidas com as paisagens, criando
um contraponto de estranhamento entre as imagens e as paisagens
urbanas. Aqui, a Forma e o Conteúdo se confundem, resultando
em uma perturbadora relação entre o tema e o procedimento, isto
é, na maneira de representar o conteúdo.
No atual projeto, a imagem precisa do suporte, mas apenas para
negar esse mesmo suporte. A imagem, ao se confundir com a paisagem,
provoca seu auto-apagamento, a negação da imagem autônoma. Nesse
momento, a presença e ausência da imagem se confundem.
Nesse caso, não existe autonomia da imagem. Ela não faz nenhum
sentido em outro local. A imagem depende do lugar específico
e da relação com o espectador.
Estas intervenções atuam como uma forma poética de restauração
do campo visual em fragmentos da paisagem urbana de São Paulo.
São intervenções que exigem muito mais que a simples contemplação,
exigem sensibilidade visual e novas atitudes na relação com a
paisagem urbana para estabelecer um diálogo capaz de desvendar
os mistérios dessas intervenções, através de uma apreciação mais
perceptiva, integrando dessa forma o observador, a imagem e a
paisagem urbana.
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